O que é melhor, ser adulto ou ser criança? Eu aposto no empate. A psicologia define o adulto como o indivíduo que atingiu plena maturidade, expressa em termos de adequada integração social e apropriado controle das funções intelectuais e emocionais. Não que seja nenhum bad boy, mas, cá entre nós, leitor amigo, desconfio que o verdadeiro propósito dos psicólogos nesta descrição era definir um indivíduo muito enfadonho, praticamente, um chato de galochas.E ainda que não seja nativo das terras de Peter Pan, mesmo assim, ao longo da linha do seu próprio tempo, convém prorrogar ao máximo o fim da infância. É garantia de levar adiante - para a nem sempre fácil vida de adulto -, o sentimento da espontaneidade; do manifestar-se como que por instinto, sem premeditação ou desvios. Em síntese, desfrutar melhor das vantagens da sinceridade em seu estado mais puro. É óbvio que cultivará uma pequena reserva de essências de hipocrisia e de falsidade, oportunas em dadas circunstâncias, pois se num determinado evento, ao ser apresentado àquele senhor de cabeça gigantesca, por certo conterá o ímpeto - ao contrário do que ocorre nas crianças - de chamá-lo de Cabeção, ou ainda, num exercício mental de criação mais apurada, apelidá-lo de Cabeça de Arromba Navio. Em sociedade, pratique, sempre, as boas maneiras.
Se, por exemplo, estiver num congresso da sua categoria profissional, na hora do cofee break, ali, de maneira discreta, entre os seus amigos mais chegados, não despreze a hipótese de uma frase mais espirituosa acerca do imenso nariz do último palestrante: "Viram aquilo? Quem sentou na primeira fila, por um triz não foi abalroado por uma narigada".
Outro procedimento saudável é não levar muito a sério o seu título de PhD, pois este poderá deixá-lo angustiado e obsessivo nas suas tentativas, dia-a-dia, de corresponder à demasiada importância que você o atribuiu. Imagine este cobiçado diploma como um não menos cobiçado Playstation III por uma criança. Nenhum adolescente, fã deste console, frustra-se pela condição de não conseguir zerar o jogo Resident Evil, muito ao contrário, ele conversa com amigos, tenta outras estratégias, e, nesse ínterim, sequer um minuto de diversão é desperdiçado.
No elevador, encontrou aquela vizinha amiga, colecionadora de títulos de MBA e um tanto estressada por excesso de trabalho no cargo de vice-presidente da Companhia Chupa Sangue S.A.? Não tente bancar o adulto, intencionando ensinar-lhe um daqueles mantras horrorosos - duuummm, zuummm, togiziduuummm - ou alguma daquelas posturas tediosas do ioga, capaz de fazê-la atingir o mocsa. Seja natural como as crianças, faça perguntas ou afirmações ingênuas, como por exemplo: "já assistiu ao filme A Volta Dos Que Não Foram? ou, "ontem, vi um filme muito bom, Poeira Em Alto Mar".
Porém, se é vintage e a sua preferência é o estilo retrô, experimente animar a sua vizinha estressada com este método do tempo do meu avô. Proponha o seguinte teste, tudo que disser-lhe, ela terá de responder - rapidamente - com a última palavra da frase que você usou, acrescida do vocábulo "arida". Por exemplo: se você diz, "eu vi um carro", ela responde, "carroarida"; e você continua, "eu vi um pássaro", ela replica, "pássaroarida". Você inventa mais umas três, e, finalmente, fala: "eu vi uma estopa", ela diz: "estoparida". Quando ela perceber a inocente armadilha, no mínimo, dá um sorriso. Algumas riem antes mesmo de responderem: "ah!..., já sei, estou parida".
Nesta mesma linha, tem outra igualmente apropriada para estas ocasiões, também do período paleolítico. Você pode pedir a alguém que repita várias vezes a seguinte expressão: "meu pai, Eva e Adão". Primeiro, bem devagar; depois, cada vez mais rápido. Vamos lá! Faça isso, e veja o resultado1.
Mas seja cuidadoso, prolongue o fim da sua infância com cautela e moderação, não esqueça que de fato você é um adulto, paga o leite das crianças, impostos, e os privilégios desmedidos de deputados e senadores. Portanto, não vá bocejar em demasia enquanto aquele casal de amigos, vibrando de entusiasmo, exibir para você o vídeo do primeiro aniversário do filhinho deles, por sinal, com direito a replay das melhores partes, ainda que este registro familiar - geralmente só visto com entusiasmo pelos pais do aniversariante - transmita a sensação de durar tanto quanto aquele famoso filme, E O Vento Levou. Tampouco faça cara de terror - como se estivesse de frente para Freddy Krueger - depois de ouvir a frase dita pela sua colega de trabalho após mostrar-lhe a fotografia do seu bebê, nascido de poucos dias: "não é uma gracinha?".
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Nota:
1) Esta não tem efeito em Portugal, pois, diferente do Brasil, onde o termo jocoso empregado para designar um gay, é "veado"; lá, eles usam a palavra "paneleiro".












































